quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Bruno Michel Ferraz Margoni - Michel F.M. - Poeta, Escritor, Compositor, Filósofo, Historiador



Poemas de Bruno Michel Ferraz Margoni - Michel F.M.



Última chamada para uma partida sem retorno 

das medidas perfeitas
se despediu,
da simetria e da proporção.

se despediu dos valores,
tão caros e valiosos,
nada representavam

senão uma ideia, puramente 
idealizada, não eram
mais uma preocupação.

das frases feitas
se despediu,
prosa poética e narração.

se despediu das estrofes,
tão cansativas, monótonas,
nada inspiravam.

era só a explosão de vida
que lhe interessava agora,
desorganizada e imperfeita,

comprometida consigo mesma
em primeiro lugar
e em seguida com todo o resto,

daquilo que se espalha 
e aglutina, potência ainda 
inominada, primitiva e irrestrita.

despadronizada e satisfeita
como a própria explosão de vida, 
era só o que lhe interessava,
a partir de agora.

29/06/24






Adeus ao Homem Vitruviano

do verde que atrai as gotas
de nuvens que reflorestam,
das folhas que fazem planta,
a gota que aqui está.

na confecção 
de combinações 
impensáveis, 

nossas vidas
são um emaranhado 
daquilo que acreditamos, 

ou o resultado 
das colisões improváveis 
nas quais decidimos 
acreditar.

de toda esta diversidade 
que de nós emana,
destaca-se nossa incalculável 
perversidade humana,

quando o conhecimento 
vem munido de toda técnica 
e nenhuma consciência.

nos resta a gota que cai na folha
das folhas que fazem planta,
do verde que atrai as gotas,
de nuvens que reflorestam.

quando o fim de tarde é lilás,
quando já for tarde demais,
entre a pedra que foi lascada

e o foguete final lançado,
quando o mundo tiver acabado,
dedico-te o surto, que aqui está.

30/06/24






3024 d.C.

ao despertar da cápsula 
de hibernação,
encarei uma face 
desconhecida.

no reflexo do vidro,
as feições distorcidas
desenrolaram
um pensamento claro:

numa análise cirúrgica 
de nossa encruzilhada social, 
estamos em mais um 
momento histórico, 

que determinará 
as próximas décadas 
e nossas relações humanas 
nesse ínterim.

a atmosfera 
de estupidez e alienação, 
paira mais uma vez sobre nós. 

a marcha da história 
é implacável e só 
a consciência crítica
pode nos amparar, 

em meio a brutalidade 
das classes dominantes.

que possamos compartilhar
imprescindíveis reflexões, 
para um modo de agir 
humanizado, 
que nos resgate 
da apatia cotidiana.

que possamos resistir 
uma vez mais, 
como tantos outros 
resistiram antes de nós 
e outros tantos 
haverão de resistir.

03/07/24






Poema em Carbono

se atente 
à distância 
que a luz percorre.

quando acordar desesperado
por não ter controle 
sobre nada,

quando perder o sono
pela falta de sentido
que encharca a vida.

lembre-se que a Terra
não precisa de nós 
para girar,

que o sistema solar
não precisa da Terra 
para aquecer,

que a Via Láctea 
não precisa do Sol 
pra iluminar,

que o Universo não 
precisa desta Galáxia
para expandir.

e você não precisa 
de todas essas coisas 
inúteis para viver,
ser notado e se exibir.

neste vasto profundo,
cada raio de luz
encontra sua escuridão. 

nunca imaginamos que 
viveríamos tanto,
mas chegamos até aqui.

e com a legião de demônios 
que habita nossa consciência, 
desconfio que chegamos 
longe demais.

21/07/24





Pregnância

o formato é tão 
contornável,
enquanto a forma
esbanja volume.

veemência é um
sinônimo para 
intensidade,

mas tensão cria
expectativas, 
que podem ou não 
se concretizar.

amarrotados
nesta retalhada rotina,
o que nos sustenta 
é nossa percepção
distorcida.

o que seria de nós 
sem uma teoria inventada,
seríamos tudo ou nada,

bem como já somos,
poetas ásperos 
em versos macios.

nossa razão 
de existir, 
ainda persiste em ser,

enquanto buscamos
impregnar de sentido, 
os cotidianos vazios.

31/08/24






Sirva-se quem puder 

a fome não espera 
pelo que é certo,
ela não espera 
pelo que é justo.

teu estômago não 
compreende méritos,
oportunidades ou sucesso.

teu suco gastrointestinal
não diferencia metas,
de lixo em decomposição.

a ausência não sacia
ninguém.
a falta não alimenta,
senão a revolta.

nutridos 
pelo desconforto,
reconhecidos
pelo desalento, 

andarilhos
desamparados,
famintos
desgraçados, 

acolhidos apenas
pela desordem,
uni-vos.

toda reação é justificável
e necessita ser violenta,
contra esta engrenagem 
lubrificada pelo
teu sangue.

a fome não espera 
pelo que é justo,
ela não espera 
pelo que é certo.

31/08/24

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Antífona do Último Sábio a deixar o Recinto - Michel F.M.

Antífona do Último Sábio a deixar o Recinto O fim, Chega para todos, Em sua totalidade. O mundo é deveras medíocre, Se nã...